Depois disso muitos trabalhos vieram à tona para
corroborar a tese da ação antiobesidade. Faltava
apenas fugir do terreno das hipóteses e chegar a
explicações mais consistentes. A investigação andou
a passos largos e hoje já não há tantos mistérios
sobre os mecanismos envolvidos nessa história.
"O cálcio interfere no
desenvolvimento dos adipócitos, as células de
gordura", resume a nutricionista Mariana
Del Bosco, que anda estudando o assunto na
Universidade de São Paulo (USP). Esmiuçando
um pouco mais: ele bloqueia enzimas envolvidas na
formação desse grupo celular. Experimentos
demonstram que, na falta do nutriente, ocorre um
desequilíbrio. Resultado: os adipócitos incham e o
ponteiro da balança dispara.
Outra ação do cálcio contra a
obesidade aparece em um estudo europeu.
Pesquisadores da Universidade de Copenhague,
na Dinamarca, comprovaram que alimentos ricos no
mineral brecam a absorção da gordura vinda das
refeições. Em outras palavras, parte das moléculas
engorduradas é varrida para fora do organismo na
digestão, o que impede seu acúmulo.
Para completar, há evidências
de que o mineral atue no aproveitamento da insulina
— hormônio fundamental na regulação do metabolismo e
da própria fome. Seu excesso na circulação contribui
para o armazenamento de energia na forma de gordura,
o que, óbvio, leva ao aumento do tecido adiposo. Ou
seja, se falta cálcio a barriga salta aos olhos e os
pneus dão o indesejado ar da sua graça.
No grupo de 42 voluntários que
participam do estudo na USP foi detectada, logo de
cara, uma deficiência do mineral e, coincidência ou
não, vários quilinhos extras. Após cinco meses e com
a adequação do consumo de boas fontes, sobretudo com
suplementos diários, a equipe de Mariana Del Bosco
já nota que as cinturas se afinaram. São os
primeiros efeitos e, sem dúvida, já merecem
comemoração.
Incluir o cálcio no
cardápio também ajudaria a manter bem longe a temida
síndrome metabólica.
O problema — que cresce no
mundo inteiro — resulta da soma de glicose elevada,
pressão alta e alteração nos níveis de colesterol e
triglicérides. Uma mistura explosiva que bota o
coração em risco. A boa notícia é que o mineral
desponta em estudos como aliado contra o mal.
Uma análise de diversos
trabalhos, recém-publicada no periódico científico
americano The Journal of Clinical
Endocrinology and Metabolism, mostra uma
associação entre o consumo de alimentos ricos no
mineral e a diminuição do risco da síndrome.
CAPRICHE NA DIETA
A maioria das pesquisas menciona a
suplementação para alcançar os bons efeitos do
cálcio. Não dá para contar só com as fontes
naturais, que cada vez estão mais fracas. Até
porque, você não pode tomar um litro de leite
natural todos os dias, como reza a cartilha da boa
nutrição, exageros nunca são bem-vindos nem mesmo
quando a substância apresenta uma penca de
benefícios à saúde. Por isso, só são recomendados os
alimentos naturais e suplementos classificados como
alimento (Reg.MS. 4, 5 ou 6).
Laticínios
(como
leite, iogurte e queijo) contém cálcio,
entretando eles não são recomendados como uma fonte
dietética porque eles contém uma quantidade
significante de gordura saturada, que pode
contribuir para doenças cardiovasculares. A
quantidade de cálcio dos laticínios também é
enganadora porque a maior parte do cálcio é usada
pelo corpo para a digestão da proteína do leite
(caseína), o que pode levar a uma deficiência de
cálcio e à osteoporose.
Por outro lado, aquela velha
história de que o mineral pode provocar pedras nos
rins virou lenda. Ficou claro para a ciência que
somente o excesso de cálcio de origem animal, leite
e derivados, pode gerar pedras nos rins. O
cálcio de origem vegetal e mineral, ao
contrário, ajuda a equilibrar os níveis de oxalato,
uma substância que contribui para solucionar
o problema, ou seja, tem efeito preventivo.
Outra ótima notícia, segundo
Mariana Del Bosco, é que o mineral favorece uma
alimentação mais equilibrada. O trabalho da
USP mostra que a introdução do cálcio induz as
pessoas a consumir mais fontes de proteínas,
sobrando menos espaço para os carboidratos.
É bom frisar que esse é mais um empurrão na batalha
contra a obesidade, já que as proteínas prolongam a
saciedade.
A frase que vem a seguir
lembra até slogan de banco, mas merece sua atenção:
quanto mais você investe no mineral ao longo
da vida, maiores as garantias de um futuro tranqüilo.
Eis o que os especialistas chamam de poupança de
cálcio. "Para evitar a osteoporose, é importante
assegurar bons níveis do nutriente desde cedo",
afirma a endocrinologista Marise Lazaretti Castro,
da Universidade Federal de São Paulo. Os
adolescentes que andam trocando laticínios por
refrigerantes e salgadinhos precisam abrir os olhos
rapidamente. Essa é a melhor fase da vida para
assegurar uma boa estrutura óssea.
Aliás, é fundamental que o
esqueleto acumule bastante mineral até os 30 anos.
Depois dessa idade, começam as perdas. Existe todo
um delicado equilíbrio entre a massa óssea e
diversas células do corpo para o aproveitamento de
cálcio. Com o passar do tempo esse mecanismo pode se
alterar, já que seu funcionamento depende de
hormônios e outras substâncias. "Quando
falta o nutriente no sangue, o organismo vai
buscá-lo nos ossos", diz a nutricionista
Karla Silva Ferreira, professora da Universidade
Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, no Rio
de Janeiro. Daí eles acabam mais fracos e sujeitos a
fraturas.
Se você faz parte da turma que
já passou dos 30 e nunca foi muito fã das fontes do
mineral, não adianta chorar o leite derramado, com
perdão do trocadilho infame. A dica dos
especialistas nesse caso é investir no cálcio pra
valer, sem mais perda de tempo, tome suplementos de
cálcio. "Infelizmente os adultos aqui no
Brasil consomem uma média de 500 miligramas, quando
a recomendação é justamente o dobro, 1.000
miligramas", lamenta Marise. Talvez esteja aí a
razão pela qual a osteoporose seja considerada como
um problema de saúde pública.
"Estima-se que atinja 25% das mulheres com mais de
50 anos e 13% dos homens depois dos 70", diz Marise.
EMPURRÃO
BEM-VINDO
Para dar uma força à ação do cálcio e blindar ainda
mais o esqueleto, consuma suplementos de cálcio com
vitamina D e magnésio. "A vitamina D e o
magnésio ajudam as células intestinais a
absorver e fixar o mineral", conta a professora
Karla. Já a cafeína faz exatamente o contrário.
"Evitar o exagero no consumo de café e chá preto é
uma forma de contribuir para o aproveitamento do
nutriente", sugere a nutricionista Isabela Guerra,
do Instituto de Metabolismo e Nutrição, que fica na
capital paulista.
Outra idéia para captar o
máximo do mineral é moderar na ingestão de sódio,
sal ou sal de cozinha. "A substância facilita a
sua excreção", conta Karla, que aponta ainda os
grãos de soja integral como obstáculo. "Ela contêm
fitato, um composto que se une ao nutriente e o
arrasta para fora do organismo sem que ele seja
utilizado, prefira consumir proreína de soja
isolada", afirma Karla.
ONDE ELE
ESTÁ?
Escolha seu item predileto e afaste a
deficiência do mineral
|
Alimento |
Teor de cálcio (mg) |
|
Suplemento de Cálcio com
Vitamina D e Magnésio (1 tablete) |
398 |
|
Leite (1 copo) contém gordura saturada |
268 |
|
Iogurte integral (1 copo)
contém gordura saturada |
246 |
|
Sardinha (3 unidades) conservadas em oléo de
sardinha ou água |
234 |
|
Queijo Minas (1 fatia)
contém gordura saturada |
174 |
|
Brócolis cozida (100 g) |
168 |
|
Espinafre cozido (1 xícara) |
136
|
FONTES: NUTRICIONISTAS
USP DE SÃO PAULO E USDA
(DEPARTO DE AGRICULTURA DOS EUA)
POR QUE ELE
É INDISPENSÁVEL
Confira outras surpreendentes e muito
bem-vindas atuações do cálcio
1. CONTRA
TUMORES
"Diversos trabalhos mostram que
o mineral diminui o risco do câncer de cólon",
garante a cirurgiã proctologista Angelita Gama,
presidente da Associação Brasileira de Prevenção
do Câncer de Intestino (Abrapeci). Além de
proteger contra lesões na parede intestinal, o
nutriente breca a multiplicação de células
cancerosas. Mas a especialista ressalta que isso
só acontece dentrode um contexto saudável, ou
seja, quando o cardápio é balanceado. Aliás, aqui
a melhor sugestão é optar por alimentos mais
magros, pois o exagero na gordura é apontado como
um dos estopins da doença. Angelita conta que a
Abrapeci acaba de lançar um livro com receitas de
chefs famosos que auxiliam no combate ao tumor.
2. A FAVOR DA PRESSÃO
O cardiologista Heno Lopes, do Instituto do
Coração, em São Paulo, confirma a relação entre
consumo do nutriente e redução da pressão
arterial. "O mecanismo preciso ainda não está
totalmente elucidado", ressalva o médico, que é
autor do livro A Dieta do Coração. "O que se deduz
é que o cálcio e o magnésio estejam diretamente
envolvidos com a excreção de sódio e relaxamento
muscular", diz. E quanto menos sódio, sal ou sal
de cozinha, tanto melhor, pois a substância
atrapalha o movimento de dilatação e contração dos
vasos, dificultando a circulação sangüínea.
3.
EFEITOS NA CUCA
"O cálcio ajuda a transmitir impulsos nervosos",
conta a nutricionista Késia Quintaes, da
Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas
Gerais. Ele participa de trocas entre os
neurônios, contribuindo para que o sistema nervoso
funcione direito.
4. MÚSCULOS EM ORDEM
Quem pratica atividade física tem que caprichar
nas fontes de cálcio. "Ele é essencial para as
contrações musculares", diz a nutricionista Tânia
Rodrigues, especialista em esportes da RG Nutri,
que fica na capital paulista. O desequilíbrio nos
níveis desse mineral e do potássio pode resultar
em desconfortáveis cãibras. "Basta apostar na
alimentação bem balanceada, levando em conta a
modalidade esportiva", diz ela.
TEM MINERAL NO CREME
A indústria de cosméticos também
joga holofotes sobre o cálcio. Por volta dos 60
anos, o organismo já não assimila bem o mineral e
essa carência pode acentuar a flacidez da pele, o
suplemento de cálcio ajuda como
um anti-rugas natural para pessoas dessa faixa
etária.
DICAS PARA
GARANTIR SUA DOSE DIÁRIA
• Consuma
diversas fontes no café da manhã.
• Prefira alimentos fortificados.
• Inclua Suplementos de Cálcio com Vitamina D e
Magnésio.
• Depois de comer alimentos ricos em ferro — a
carne vermelha, por exemplo —, espere duas horas
antes de ingerir leite e seus derivados. É que
esse leite dificulta o aproveitamento do cálcio.
DE QUANTO
VOCÊ PRECISA?
Confira a dose de cálcio necessária
para cada fase da vida: